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terça-feira, 24 de junho de 2014

Foi Vento...


Hoje, invade-me uma serenidade invulgar.
Uma vontade de ser abraçado.
Uma vontade de abraçar.
Sinto-me como o desalojado…
Contemplando a sua obra devastada pelo tornado.
Mas como sereno? Se o vento tudo levou!
Tudo?
Não!
Não levou a dignidade!
Não levou a certeza das nobres causas!
Não levou a pedra da fraternidade.
Não levou a vontade!
A vontade de recomeçar.
Porque vento nenhum apagará a verdade!


Jaime, 22 Junho 2014

sábado, 26 de abril de 2014

Sonhar Abril



Sonhar Abril, dos quarenta cravos vermelhos.
Sonhar Abril, da liberdade, da paz e do futuro.
Sonharam novos e sonharam velhos!
Galgaram estradas, caminhos e ruas,
partiram cercas e tombaram o muro
da tirania e da opressão.
Com cravos, e as armas da verdade e da razão.

Sonharam a democracia, progresso, igualdade,
sonharam com uma nova vontade,
de construir, crescer evoluir.
Olhar em frente, rumar à liberdade!

Roubam-nos o sonho… esmagam Abril,
Abafam a voz dos que deram o corpo às balas!
Roubam-nos o sonho e carregam cifrões,
regam os cravos com águas do passado,
mandam-nos fazer as malas…
Os ladrões!
Ladrões de um sonho de Abril realizado!

E assim, à deriva deixaram uma nação
embalada em ondas de promessas,
e abutres armados de corrupção,
que viraram tudo às avessas!

Comemorar Abril sem coração?   
Comemorar Abril com cravos cinzentos?
Não! Abril sonha ainda…
Que não se abra a porta da escuridão,
que soprem novos ventos!
Que não se cale de vez a esperança,
que venham archotes de indignação!

Ainda há Abril por cumprir
E cravos que querem ter cor!
Há muita alegria para rir
Há ainda muito orgulho e preceito!

Sem portas escancaradas,
filósofos ou animais de capoeira.
Firmes, de fileiras cerradas,
de um só folego sopremos esta poeira.
Porque afinal, Abril chegou!
E já com quarenta cravos no peito:
Ainda não se realizou!



Jaime Martins – Abril 2014

domingo, 29 de abril de 2012

NEVOEIRO - Fernando Pessoa


NEVOEIRO

Nem rei nem lei, nem paz nem guerra
Define com perfil e ser
Este fulgor baço da terra
que é Portugal a entristecer -
Brilho sem luz e sem arder,
Como o que o fogo-fátuo encerra.

Ninguém sabe que coisa quer.
Ninguém conhece a alma que tem,
Nem o que é mal nem o que é bem.
(Que ânsia distante perto chora?)
Tudo é incerto e derradeiro.
Tudo é disperso, nada é inteiro.
Ó Portugal, hoje és nevoeiro...

É a hora!

Fernando Pessoa - "A mensagem"

quarta-feira, 25 de abril de 2012

Sonhar Abril...



Comemorar Abril sem os seus Capitães? 
Comemorar Abril sem os seus heróis?  
Comemorar Abril com cravos murchos?
Não! Assim não se comemora Abril!
Assim, cala-se de vez a esperança, 
incendeiam-se os archotes da indignação!
Não! Assim não se vive Abril!
Apenas se recorda o dia em que começámos a sonhar,
sonhar que a liberdade era possível! 
Comemorar Abril com aqueles que nos têm roubado esse sonho?
Que nos violentam com um suave e cínico regresso ao passado?
Não! Assim não se realiza Abril!
Porque afinal, se calhar Abril chegou, mas não se realizou!
Ainda…
Ainda havemos de abraçar Abril…
Quando os cravos voltarem a ter cor! 

Jaime

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

O ninho


Aparenta fragilidade.
Serviu de abrigo, quando proliferavam as folhas.
Folhas que o vento levou. E resistiu.
Resistiu ainda a chuvas. Ventos e chuvas.
Aparenta fragilidade.
Fragilidade do pequeno ser que o construiu,
Carregando a solidez com que o amor alimenta o ninho.
Com a mestria que a intuição determina.
Para resistir.
Palha por palha, novelo por novelo,
o ninho lá permanece, aguardando…
que regressem os seus ocupantes,
os velhos, os construtores,
ou os novos.
Qualquer deles, com o amor,
Que qualquer ninho precisa  ter…
Para resistir!

Jaime

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

A saudade abraça assim...


Falta-me um abraço.
Daquele menino frágil, que ao ouvir a voz do pai, corre descalço por aquele longo corredor e salta para um abraço igualmente longo. Sem uma palavra, apenas com um tímido sorriso. Só um abraço. Sim. É esse que me falta. Carregado de afecto, carregado de amor. Um abraço inocente. Onde pára esse abraço, que o tempo já não o traz? Onde pára o menino que assim abraçava? Para onde te levaram?
Falta-me um abraço.
Melhor: falta-me  o tempo. Tempo que afinal  não foi. A fragilidade roubada, o sorriso apagado, o afecto enterrado na ganância e despudor. O Sol foi-te roubado e já não brilha inocência no castanho escuro dos teus olhos.
Afinal… não me falta nada. Só aquilo que o presente proporciona é que nos pode fazer falta. E aquele abraço tinha braços pequeninos… braços que hoje não abraçam assim! Braços que já não sabem abraçar assim!
Afinal o que eu tenho é apenas saudade. Porque a saudade, essa, abraça assim!

Jaime

domingo, 9 de outubro de 2011

Homenagem ao meu pai - Pastor António dos Santos Martins

Aqui deixo a partilha da minha homenagem ao meu pai, fundador do Lar Emanuel, que semeou, regou e cuidou da então frágil semente, que é hoje uma árvore de vida, o Lar Emanuel - Centro Sénior, quando da inauguração das novas instalações, no passado dia 5 de Outubro.
Qualquer homenagem que  possa fazer esbarra na pequenez da minha capacidade, perante a obra que o meu pai deixou. Quer de evangelização, quer de solidariedade e dedicação ao próximo.
Mas o legado maior, é aquele que não é visível, nem mensurável.
Quem o conheceu, sabe ao que me refiro.
Obrigado...

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Caminho de Luz


Um por de Sol tem sempre encanto.
É o encanto da cor,
o encanto do som das ondas no seu restolhar constante,
da sua envolvência com a areia da praia.
O encanto do aroma que deixa cada gotícula trazida pela brisa.
É o encanto de sentir uma paz profunda,
tão imensa como o caminho de Luz que o sol deixa
espelhado nas águas por onde se esconde.
É o encanto de perceber que o ciclo continua,
que este caminho de Luz desaparece da vista…
mas permanece no coração!
Fechar os olhos, sentir o encanto de estar vivo.
Sentir o amor,
em cada carícia do vento,  em cada beijo da água,
naquele intenso cheiro de mar,
naquele som constante de cada onda que quebra,
no arrastar da areia…
E ver sempre aquele caminho de Luz,
com uma vontade imensa de o seguir…

Jaime

quarta-feira, 20 de julho de 2011

Há sempre um ultimo fôlego


















Há sempre um ultimo fôlego,
de luta e vitória,
para resistir e vencer.
De resignação e derrota,
para desistir e morrer.
Há sempre um ultimo fôlego,
quando tudo desbota,
no sufoco de tanto querer,
matando a simplicidade  de ser…
Há sempre um ultimo fôlego,
que será um longo suspiro,
se um dia perder
a capacidade de amar…
Aí sim, tudo irá,
junto com o que será:
O ultimo fôlego!

Jaime.

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

As grandes almas são assim

Foto cedida por Fátima Maximiano

As grandes almas são assim.

Não desaparecem…
Continuam brilhando,
Indicando o trilho,
Ainda que nuvens de desavença
lhes ofusquem o brilho…
lá permanecem,
renovando a esperança!

As grandes almas são assim.
Teimam para além do tempo…
Entre as ondas que crescem,
por trás das nuvens, no sopro do vento…
fazem bela a tempestade!
E em cada momento…
lá permanecem,
renovando a saudade!

Jaime

domingo, 30 de janeiro de 2011

Qual mordaça...

Qual mordaça?
A da injustiça?
Ou da caravana que passa?!
Grita, solta a alma à esperança.
Não esperes que a porta se abra,
Nem sejas só o cão que ladra!
Vai à liça!
Que o futuro está à porta,
e só sorri a quem o abraça.

Qual mordaça?
A da fome?
Ou da riqueza ilícita?!
Grita, pega a enxada e labuta.
Enfrenta quem não merece o que come,
nem o ar que respira!
Vai à luta!
Que a mordaça aqui não tem lugar,
Porque o futuro há-de mudar!

Jaime

sábado, 18 de dezembro de 2010

"Sei que não vou por aí"!

Tive ontem a oportunidade de confraternizar com um grupo de amigos. Um almoço superiormente confeccionado pelo anfitrião, foi o pretexto para se juntarem pessoas que em comum têm estima e consideração. De entre muitas conversas, veio à baila a política. E quando a “coisa” estava a ficar acesa, com um notável sentido de oportunidade, o anfitrião interrompeu, e declamou de forma intensa e sentida o poema de José Régio que abaixo reproduzo.


Mereceu o aplauso unânime. E merece esta partilha que aqui me atrevo a fazer.

Obrigado, J.S. pela hospitalidade e pela amizade.

"Vem por aqui" — dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...
A minha glória é esta:
Criar desumanidades!
Não acompanhar ninguém.
— Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?

Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...

Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tetos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...
Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém!
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou,
É uma onda que se alevantou,
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Voar alto

Querer voar alto não chega.
É preciso ser capaz.
Mesmo quando o corpo só permite voar baixinho,
há almas capazes de voar bem alto,
pela sua beleza,
pela sua pureza,
pela sua nobreza.
Voam contariando o vento,
voam a favor do vento,
Na tempestade, sabem quando se recolher...
para continuar o seu voo na bonança.
Sobretudo voam porque sabem uma coisa:
Sabem ser LIVRES!
Há almas assim...
capazes de voar bem alto.

Esta foto e este post são dedicados a todos que têm almas capazes de voar bem alto.

quarta-feira, 10 de março de 2010

Alquimia serena

Foto tirada da net


Há momentos em que é necessário parar.
Reflectir.
Ser espectador, contemplar…
deixar a vida seguir.
Sentir a chuva e o vento,
Perceber o sentido da ordem universal…
manter o discernimento,
e visitar o interior da terra.
Encontrar água, enxofre e sal…
temperos de uma existência plena,
numa alquimia serena,
onde floresce paz, de semente de guerra.

Jaime

quinta-feira, 4 de março de 2010

Asas que já não voam



Busca-se ao redor,
o que a vontade não acha,
num silêncio ensurdecedor.
Os dias passam, cresce a dor.
Vira o calendário.
Os olhos, vagueiam entre futuro e passado,
por um caminho que se afigura solitário.
Asas que já não voam,
Por um céu que já perdeu a cor.

Jaime

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

A meu Pai

Já lá vão dez anos...

Sereno partiste para o Eterno Oriente,
terminada que foi a tua jornada.
A vida segue no seu rumo, implacável.
Com virtudes, e defeitos, como qualquer mortal,
deixaste-me este legado memorável,
de princípios, de valores, de moral.
E do Nascente ao Poente…
Em cada raio de luz estampada,
encontrarás sempre a minha gratidão!

Jaime

domingo, 31 de janeiro de 2010

Ao Pôr do Sol



Ao pôr-do-sol

Eu estava sentado pertinho do mar,
A Deus elevando a minha oração;
Sentia-me triste, queria chorar
E deixei cair os olhos no chão

O Sol cor de fogo, caía também,
Em lenta agonia nas águas além;
E o vento baixinho, pôs-se a trautear
A bela canção que vos vou contar.

Falava da paz, da fé, do amor,
Do belo, do bem, da luz, do calor!
Das plantas, dos rios, dos prados, das fontes,
Das nuvens, das flores, das aves, dos montes!

E dizia em voz suave de esperança:
- Levanta o teu rosto e tem confiança,
Não olhes para baixo, contempla estes céus,
E canta comigo o louvor de Deus!

Ouve a natureza, cantemos com ela,
Tua voz dolente será doce e bela;
Perdoa e ama a todos na vida
E serás feliz, e serás querida!
És filha, és noiva, és esposa e mãe?
Queres a vitória e queres ser alguém?
És forte se aos outros estenderes a mão
A todos servindo de alma e coração!

E a noite caiu bonançosa e calma
Enquanto eu orava ali, junto ao mar,
E a voz de Deus falava à minha alma
Ouvindo o oceano no seu marulhar.

6 de Agosto de 1964
António dos Santos Martins (1921 - 2000)

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Olha. Olha bem!


Um lance de olhar, simples, sem objectivo.
Olhando, apenas por olhar…
súbito, o Sol rompeu por entre as nuvens.
A sua luz revela pequenos traços…
Um olhar mais atento mostrou a minúcia
de um trabalho de paciência.
De um trabalho de sobrevivência.
O belo e o drama,
Juntos nesta denúncia.
Que outros segredos pode a luz revelar,
por onde pousas o teu olhar?
Que segredos trazes de onde vens,
Que amor pões nos teus abraços?
Podes olhar apenas adiante,
distante…
Mas olha… e olha bem!
Porque um abraço não é uma teia!
A teia que te envolve e trama,
Só quem a vê sabe de onde vem.
Olha. Olha bem!

Jaime

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

O calor do teu amor

Olhando o fogo, que crepita na lareira, sinto o aconchego do calor que irradia. E fico grato por este conforto. A chama engole o tronco suavemente, envolvendo com a sua luz amarela ténue todo o espaço, criando jogos de sombras que dançam, quais vultos fugindo do vermelho intenso e do calor do brasido. De vez em quando, um estalido quebra o suave crepitar, e um sopro de pequenas faúlhas sobe, sumindo-se no nada… tão rápido quanto apareceram… Amanhã tudo será cinza. Pó branco em que o calor transformará o tronco.
E:
O calor que me dá o teu amor, assim me parece.
Com carinho preenches cada dia,
cada carícia tua me aquece,
me ilumina com a luz que irradia…
Luz intensa esta,
Que faz de nós apenas sombras errantes,
amando, dançando em permanente festa…
Rodopiando no ar, como faúlhas incandescentes,
Sopradas pelo fôlego do amor que nos juntou.
E que assim seja, enquanto durar o presente…
Enquanto este tronco de amor arder,
Porque no futuro, que se quer distante,
Tudo será cinza… pó que o amor alimentou!

Jaime

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Silêncio

Silêncio
A mim, sabe-me bem, quando vem por bem.
Diz-me o que gosto, e o que não gosto!
Não tem preconceitos, o silêncio:
Não avisa quando vem.
Ora me faz rir…
Ou me dá um medo de fugir,
Quando me é imposto!
Também é um privilégio, o silêncio:
Em silêncio tenho aprendido,
não é apenas ausência de ruído:
Quando tudo o resto se vai, o silêncio fica,
afinal, em silêncio também se comunica…
Guarda segredos, o silêncio:
Tal como um cofre!
Em silêncio se ama.
Em silêncio se sofre.
Em silêncio uma lágrima se derrama...
É cruel e belo, o silêncio!
Sabe o que a alma não diz!
Indica caminhos ao aprendiz,
alimenta rios de esperança…
alimenta sonhos de criança…
O silêncio… e a ti? O que te diz?

Jaime